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Por que o alimento fica caro quando o dólar aumenta?

Pedro Lacerda[1]


Deve-se primeiro elaborar a divisão dos preços e processos até que o produto chegue ao mercado de sua cidade.

Temos assim diversos tipos de produtos, como:


1 – In natura – que são as verduras, frutas, carnes, peixes e aves. Esses são produtos retirados da natureza e vão diretamente para o prato;

2 – Minimamente Processados – leite por causa da pasteurização, arroz, feijão, lentilhas, cogumelo, farinha de mandioca, farinha de milho, frutas secas, entre outros alimentos;

3 – Alimentos processados – Alimentos defumados, produtos enlatados (salsicha, atum, ervilha, milho), são adicionados conservantes, estabilizantes e emulsificantes.

Além da diversidade de processos que os alimentos passam, temos também fatores como: Mudanças climáticas, falta de infraestrutura para escoar os alimentos, baixos investimentos, entre outros.

No ano de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi extremamente afetado pelas mudanças climáticas resultando em enchestes devastadoras. Dados da Assessoria Econômica da Farsul mostram que de 2020 a 2024 a economia agrícola acumulou uma perda nominal de R$ 106,5 bilhões. Aplicando o IPCA, as perdas podem chegar a R$ 117,8 bilhões. A pesquisa considerou apenas as principais culturas do Rio Grande do Sul, como: arroz, soja, milho e trigo.

Com o background posto é possível entender melhor o que é “commodity”. Termo da língua inglesa que significa mercadoria. Além do significado inglês que pode ser entendido de forma ampla, falamos de produtos primários ou semielaborados, normalmente são produtos agrícolas e minerais, mundialmente padronizados, com preços cotados e negociados pelas principais bolsas de mercadoria. Trata-se de uma invenção econômico-financeiro criado nos Estados Unidos em meados do século XIX (CRONON, 1991), que possui forte expressão geográfica e política. Quando se trata de commodity agrícola – há uma lógica única e global e há uma situação sobre a qual exerce pouco ou nenhum controle.

Ao normatizar um produto primário, toda cadeia produtiva de uma nação que possui uma moeda fiduciária própria, está submetida a agentes globais. Produtores, transportadores, comerciantes e empresas locais, devem se adaptar aos preços internacionais. Grandes firmas exportadoras e importadoras, conglomerados alimentícios e especuladores financeiros, acarretando numa vulnerabilidade na produção local.

Além da internacionalização dos preços, temos a monopolização das empresas, as grandes responsáveis da manipulação do café, são: Kraft Food Inc, que em 2015 se fundiu com a Heinz, se tornando a 5° maior empresa do mundo, ela possui sede nos Estado Unidos e um valor de mercado de U$ 60,5 bilhões (2011), ela em 2010 detinha 14,5% da participação do mercado de café no mundo; a Nestlé que possui sede na Suíça, detinha em 2010, 13,8% do mercado do café no mundo, a empresa obteve uma receita de 98 bilhões de dólares, a empresa é dona de mais de 2000 (duas mil) marcas no setor alimentício, dentre elas o Nescafé, Nescau, Kitkat, Garoto, Prestígio, Alpino, Passatempo, entre tantas outras; Sara Lee é outra empresa estadunidense bilionária que detinha em 2010 uma participação de 9,2% no mercado do café no mundo.

Com as fusões de empresas do ramo alimentício extinguiu a livre concorrência nos supermercados. O café é negociado na Bolsa de Nova Iorque desde 1882. Existem outras implicações no mercado das bolsas de valores, que é o mercado futuro, nesse mercado eles negociam sacas de matéria-prima que não existe. Usando dados do gráfico elaborados pelo Samuel Frederico, mostra que em 1980, o mercado físico do café negociava 4,1 milhões de toneladas e o contrato futuro negociava 20,7 milhões de toneladas, e em 2010, a venda no mercado físico do café foi de 7,9 milhões de toneladas e no contrato futuro 121,8 milhões de toneladas de café, que não existe.

O avanço tecnológico trouxe também uma maior especulação financeira no mercado futuro e consequentemente na volatilidade do preço físico do café. A informação quase instantânea chega aos negociadores, que fazem investimentos e desinvestimentos de forma eletrônica e instantânea.

De forma conclusiva, o preço dos alimentos sobe quando o dólar sobe porque são cotados em dólar, bolsas dos Estados Unidos cotam todas as commodities na moeda local, e o sistema financeiro SWIFT que eles criaram e todos usam cartões do sistema americano como Visa e Mastercard, isso faz com que a manutenção da soberania do dólar se mantenha.

Nesses sentido, as commodities principais são: petróleo que interfere no preço do combustível, e se o preço do barril de petróleo sobe, o custo dos transportes também sobe, o que impacta no preço dos alimentos, bem como, em uma infinidade de outros materiais como o plástico. O Brasil, apesar de ser um país produtor e exportador de petróleo, ainda depende da importação de combustíveis para o mercado consumidor local, onde a Petrobras adota preços internacionais. A carne também é cotada em dólar, e o que pesa nos animais, além de todo cuidado para evitar doenças, a ração exerce um dos principais custos na pecuária, e parte da ração por ser milho e soja, também são cotados em dólar. O produtor local consegue produzir abaixo da cotação, porém, quase todas empresas já foram adquiridas por gigantes transnacionais e que dolarizam a produção nos países para adquirirem lucro, do dinheiro que não ficará no Brasil e sim nos Estados Unidos, ilhas fiscais ou outra nação europeia.



[1] Bacharel em Geografia, articulista do Brasil Grande e Diretor do El Nacionalista. Professor de escola pública estadual. Articulista nas áreas: política, geopolítica, meio ambiente e geografia.


Referências:


COLÉGIO WEB. Alimentos naturais x Alimentos industrializados. Saúde. Colégio Web, 2014. Disponível em: https://www.colegioweb.com.br/saude/alimentos-naturais x-alimentos-industrializados.html. Acesso em: 21 mar. 2025.


CUSTÓRIO, Paloma; ROSSI, Mônica. Estiagem provoca maior ciclo de perdas agrícolas do RS. Agro Estadão, 2025. Disponível em: https://agro.estadao.com.br/clima/estiagem-provoca-maior-ciclo-de-perdas-agricolas da-historia-no-rs. Acesso em: 21 mar. 2025.


FREDERICO, S. Lógica das commodities, finanças e cafeicultura. Boletim Campineiro de Geografia, v. 3, n. 1, p. 97-116, 2013. DOI: 10.54446/bcg.v3i1.91.

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